Fura teto, fura bolo

Vinícius Machado

O mercado financeiro já entendeu há muito tempo que o Governo e seu orçamento são como uma criança e um bolo de aniversário: basta um descuido e o dedinho está lá para furar a fila antes da hora. Se a simples atitude pode azedar uma festa, imagina só o que não pode gerar em todo um País.

Para se ter ideia, enquanto as Bolsas de Valores do mundo seguem em recuperação, em especial para as comodities, o mercado brasileiro desvalorizou 3% somente no primeiro trimestre de 2021. O SP500, principal índice de ações americano, apresentou alta de 7%.

Mas afinal, o que estamos fazendo de tão errado? 

Para compreender melhor o cenário de erros, vamos listar 3 fatos que ilustram bem essa dificuldade brasileira:

  • A falta de coordenação na pandemia cobrou o seu preço e somos um dos piores países no combate ao vírus. Como efeito, existe um adiamento de investimentos e a economia anda mais devagar. Muito mais do que a minha opinião, observamos com clareza essa dificuldade se analisarmos a carta assinada por importantes economistas e empresários em março deste ano, com uma crítica aberta a condução do Governo Federal no tema;
  • A tentativa de promover um aumento das emendas parlamentares no orçamento de 2021 com objetivo de agradar a base aliada do presidente. Existe um teto de gastos a ser cumprido e nenhum espaço para gastos adicionais, contudo, o presidente Jair Bolsonaro prometeu o que não podia para ganhar apoio e adivinha só quem pagará essa conta? Já estamos observando o acentuado aumento no dólar e nos juros em grande parte por conta dessa postura infantil de não encarar os fatos e a matemática. Supreendentemente aquele tido como fiador do governo, o Paulo Guedes, não parece muito motivado a lutar pela saúde financeira e abre espaço para a temida contabilidade criativa e novas pedaladas fiscais;
  • Investidor estrangeiro com uma percepção muito clara de ingerência dos problemas nacionais. Perdemos em muitas coisas no último ano: na diplomacia, no ambientalismo, na segurança jurídica, no aumento da percepção de autoritarismo, entre outras perdas. O último trimestre de 2020 mostrou uma recuperação dos fluxos de capitais vindos para o Brasil e com toda a injeção de planos econômicos anunciados por países desenvolvidos, como os EUA, esse recurso deveria vir cada vez mais para o Brasil. Com todas as incertezas, fomos para o fim da fila e tivemos um primeiro trimestre com menos entrada de investimento estrangeiro que deveríamos. Menos investimentos são menos empregos, menos dinamismo na economia e dólar mais pressionado, ou seja, tudo o que não estamos buscando.

Tudo indica que o governo entendeu o recado pela sua perda de apoio por vários pontos de vista e de vários agentes de poder no Brasil. Mas calma, Bolsonaro não vai mudar, mas pode passar um verniz e deixar nossa aparência mais agradável, flexibilizar seu discurso é um primeiro passo e a recente carta de compromisso para os EUA com compromissos ambientais pode ser um sinal.

Assim esperamos…

Vinícius Machado é consultor e gestor de investimentos certificado e regulado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), formado em economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, possui mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro.

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Vinicius Machado

Vinicius Machado

Economista pela Federal do Rio Grande do Sul e com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro. Durante a minha carreira sempre me encantei com atendimento direto às pessoas e aprendi a pensar as finanças além dos números, afinal, indivíduos não se resumem em suas metas e rentabilidades.

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